Cordel – Lembranças

HISTÓRIASMIL
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Eurico Paes de Oliveira, senhor da roça do bairro das Abóboras Municíppio de Pereiras SP., íntegro, honesto e humilde, com seus 28 anos, em (1959)ele acordou de um sonho e depois contava para a família esse episódio (A sinópse)da Espiga de Milho.  Eu acrescentei ao episódio, a conversa dos dos Anjos e do Casamento e o título, O Senhor do Tempo.(Conto, com mais um ponto).
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01) O cachorro sujo de sangue. = Conto popular (Autor Desconhecido).
02) Alma prô diab. =  História verdadeira acontecida em Pereiras SP.
03) A praga do Padre. = História acontecida em Pereiras SP.
04) A Alma ensina simpatia. = Historia acontecida no Bº Ximbó Pereiras SP.
05) A senhora do retrato. =  Com Autor de Moda de Viola.
06) O relógio quebrado. =  Com Autor de Moda de Viola.
07) José Santana. =  Com Autor de Moda de Viola.
08) o Milagre da Rosa. =  Com Autor de Moda de Viola.
09) O fazendeiro e o Divineiro. =  História verdadeira acontecida em Laranjal Paulista SP. Contada p/Autor Apolinário.
(10) A espiga de Milho.(JEd) =  Autor Eurico P.Oliveira.
(11) Minha mão vai crescer.(JED) =  Autor desconhecido.
12) A forca. =  Autor desconhecido. =  Autor desconhcido.
13) Pode ser verdade, pode ser mentira. = Autor desconhecido.
14) A taça de vinho benzido. = História verdadeira acontecida em Pereiras SP.
15) Mãe e filha em acidente na Castelo Branco. Com Autor de Moda de Viola.
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CORDEL
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LEMBRNÇAS DO PASSADO

09/06/1975 / Sítio da
Escolinha  Bº Abóbora
Pereiras Interior SP.

Vô contá o meu passado,
O que a memória guardô.
Sô nascido lá num sítio,
Herança do meu Avô.
No meio de tantas cobra,
Lá no Bº das Abobra,
Donde Indalécio morô.

Em uma casa de barro,
Esteio cheio de nó.
E as ripa de taquara,
Amarrada cum cipó.
Como se fosse filêra
Nos cabide de madêra,
Inroscava o palitó.

No tempo que eu usava,
A veia carça arremendada.
O butinão coum meia sola,
E a camisa xadreizada.
Como um rabo de tatu
A cinta de côro cru,
De fivela inferrujada.

O enorme chapéu de paia
Que é prô Sór num castigá.
E o lenço no pescoço
Não detxava de usá.
I sapateano pelo barro
Ateava um cigarro
Pa despoi í trabaiá.

Arreava a égua baia
E saía lá pras vendas
Meu maió pobrema era
Num fartá coás incomenda
Cum uma inxada de carpi
Vortava cedo pra í
Na roça levá as merenda.

Quando a turma me avistava
Largava as inxada no eito
I no pé de guaiuvira
Eles sentava de jeito
Gulosos que nem criânça
Despoi que inchia a pança
O corpo ficava dereito.

Me recordo cum sodade
Do canário de gaióla
Dos cachorro i dos gato
I das galinha de angola
Parecia tirá sarro
O casá de djuão de barro
Coás sua cantarola.

I tamém dos curiango
Do Luá das madrugada
dos cantá das ciriema
Do revoá das passarada
Dotras coisa que nem falo
Tamém do cantá dos galo
Anunciano a arvorada.

Do terrero bem varrido
Aunde brincava cum bola
Eu fazia tudo o que vinha
Drento da minha cachola
Do carriadô das lavôra
Do trole da Professora
I das crianças da escola.

I da pulenta cum leite
Do gostoso arroi cum suã
Do cafezinho bem forte
Que eu bebia de manhã
Aqui pra nói que convenha
Feito no fogão à lenha
que só fazia picumã.

Que sodade a gente tem
De oví aqueles fato
As caçada as pescaria
que fazia pelos mato
Quase num pegava nada
Parecia inté piá da
Só pegava carrapato.

I tamém daqueles tanque
Aunde pescava taríra
Das caçadas de codorna
De marreca e batuíra
Coçano bicho de pé
Dizia proeza que inté
Dava gosto sê caipira.

Se o tempo era de sêca
Os rio pegava baixá
Aí pegava as penêra
Pa no poço mariscá
Oiano as tóca lisa
A turma ía coás fisga
I ôtra cum passaguá.

Muitas coisa se incontra
Na minha recordação
Do arroi no maiadô
Das arranca do feijão
A derriça do café
Que nói coroava o pé
I da panha do argodão.

I daqueles mutxirão
Num sai nunca da lembrança
Pra terminá um serviço
cunvidava a vizinhança
Tudo ía lá prô eito
Numa ajuda desse jeito
Quarqué entrava na dança.

Era um barreo de casa
O pa lavrá as invernada
O uma roçada de pasto
Se runía as cambada
Tanto os véio como os moço
Im troca da pinga e o armoço
Ninguém não cobrava nada.

I o bunito perfí das mata
Nas noite que tem Luá
I das réstia que as cascata
Fazia no Sór raiá
I os cantá das cigarras
Fazendo baita argazarra
Na hora do Sór entrá.

I quando chegava a tarde
Num é bão inté lembrá
Um tocabva o viô lão
Otro saía pescá
Mai despoi tudo runía
Cum as barriga vazía
Bem na hora de jantá.

I tamém daquelas noite
Parecia uma runião
Sentava quatro na mesa
Cum um baraio na mão
Prêles tudo tanto fazia
Se ganhava ô perdia
Prêles sempre tava bão.

Se chegava onze a onze
No truco era uma festa
Jogava um treis  i dizia
Ninguém pode cortá esta
I na cadera ele se ajeita
Despoi da primera feita
Pregava o zape na testa.

I ainda os cururu
Cum seu cantá impruvisado
Contava história da bríbia
Ô de verso incontrado
Na carrera de São Djuão
que tudo termina im ão
Ô na carrera do sagrado.

Me lembro da goiabêra
Do tacho de goiabada
Dava gosto inté de vê
Disso num esqueço nada
Nas bêra nói melecava
Coás raspa que detxava
Pra intretê as criançada.

Daquele véio minjolo
Num é bão inté lembrá
Café mío ô arroi
Pa muê ô pra limpá
Naquele enorme pilão
Incheno o balaião
Saía quarta de fubá.

Do ingenho de muê cana
Seu gemê desafinado
I das lata de garapa
I do tatcho de melado
Ô lambia na cuínha
Se comia cum farinha
De saí inlambusado.

Lembro do cantão de lenha
Pra ascendê a larêra
I a chaminé coitada
Fumaciava a vidintêra
Cum um fogão bem latente
A chapa vivia quente
Pa num esfriá a chalêra.

I a luz de querozene
O antigo lã pião
Detxava uma na mesa
Ôtro im riba do fogão
Inté me dava agunia
os danado só fazia
Mai fumaça que crarão.

Daquela frase bunita
Tão difice de esquecê
Daqueles rôlo de fumo
Que fazia pra vendê
— Espremente, que maciu
Iguar esse cê num viu
I é bão de ascendê!

Picava fumo coá faca
I esfarelava na mão
Inliava im paia fina
pro sabor fica mai bão
Despoi ía pra cuzinha
Um brasêro sempre tinha
I ascendia cum tição.

I daqueles cumprimento
Do jeito que respondia
Do bá tarde do teá vorta
Tamém o até quarqué dia
— Bá noite! Mecê tá forte?
Ôtro responde sem corte
— Ansim i ocê! ôtro dizia.

Quando matava porco
Poi lá tinha cum abundãncia
Repartia um pedaço
Pa toda vizinhança
Dava o pedaço maió
Um prato cheio num bocó
Pra quem tinha mai criança.

Levava o prato de carne
Chegava inté a portêra
A vizinha arrecebia
Sempre cum boas manêra
I sempre na mema base
Me dizeno a mema frase:
— pra quê? Essa trabaiêra?

I dos véio divinêro
Arrecebia sem espanto
Dava café i esmola
Lovano o Esprito Santo
Pelas graça arrecebida
Cum as promessa cumprida
Se cobrino coô manto.

I das véia benzedêra
Tinha um jeito interessante
Pra benzê as criancinha
de lumbriga i de quebrante
De tirícia, siminhoto
de sapinho gafanhoto
Inté de duença contadgiante.

Das sexta-fêra maió
guardava cum muita fé
De manhã nói só bebia
Meia chicra de café
De falá inté rupia
Dizia que nesse dia
Tava sorto o lucifé.

I quando eles contava
estóia de assombração
Dos vurto que se mexia
No meio da escuridão
Contano cheio de orgúio
Pa num escuitá o barúio
Pisava forte no tchão.

Daquelas aparição
de dgente que djá morreu
Do vurto da incruziada
Que prôs ôtro apareceu
Que balançava as ramada
Lá das mata assombrada
Que muita dgente correu.

Da estória do bitatá
Que via nas madrugada
Duas bola de fogo batia
Faisca cubria a estrada
Podia inté sê valente
Quem via isso na frente
Vortava toda rupiada.

Das estória dos saci
Que fazia se perdê
Quando atentava a gente
Num adiantava se benzê
Com as ideia torta
Atchava o caminho de vorta
Só no dia amanhecê.

Me lembro tamém dos baile
Só dançava arrastapé
De batxo do palizado
I tomá tábua das muié
O sanfonêro acumpanhado
O baile era animado
Cum réco-réco i cuié.

Dançava a noite intêra
Inté o dia crariá
Fetchava as porta i jinela
Pra mór do Sór num entrá
I o sanfonêro cuitado
Parecia desmaiado
Tchegava inté cuchilá.

I das festa da Capela
Dava prena prôs leilão
Se num era um bezzero
Era um frango ô um leitão
Num negá nenhuma prenda
I caprichá nas oferenda
Era nossa obrigação.

I tamém as grandes festa
Das noite de San Djuão
Paçoca, minduim torrado
Cachaça i muito quentão
Mío verde i pipóca
Melado cum mandioca
i castanha de pinhão.

De tanto lembrá o passado
Inté fiquei comovido
Aquelas coisa de dante
Calacrô no meu sintido
Êta sodade danada
Das coisa bem ingraçada
Daqueles tempo querido.

Só resta dizê o adeus
I terminá esta estória
Os que viro o passado
Um mundo tcheio de grória
Djá num tão mai entre nói
Só sodade que mai dói
Mai vive em nossa memória.

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