Lição do Divino

I

Esta história até hoje
Se comenta na região
Do fazendeiro maldoso
Infiel sem coração
Qeu tinha um potro de raça
Animal de estimação
E do velhinho divineiro
Cumpridor de uma missão
Todos contam com espanto
Sôbre o seu vermelho manto
Do Divino Espírito Santo
E o castigo do portão.

II

Na fazenda das paineiras
Que este fato aconteceu
Lá morava um fazendeiro
com espírito de ateu
Pois somente o dinheiro
Era seu único Deus
Sua fama de carrasco
Por todos lados correu
Ele era irresoluto
Com seu jeito de astuto
Por julgar o absoluto
Veja o que sucedeu.

III

Certa vez passou um velhinho
Mal trapilho esfarrapado
Com a bandeira do Divino
Que eraum pombinho sagrado
Em um cabo de madeira
E num manto enrolado
Cheio de fitas, retratos
Por milagres alcançados
E no portão do fazendeiro
Bateu palma o divineiro
Com modo muito cordeiro
Esperou ser convidado.

IV

O fazendeiro ao ver o velho
No portão foi atender
O velho esperava esmolas
De quem viesse a oferecer
O fazendeiro muito ousado
Prô velho pôs-se a dizer
Essa lavoura dá muito?
Ou só pedes por prazer
Aqui você não entra não
Seja quem for o cristão
Pois só abro este portão
Só prô meu potro correr.

V

O velhinho do Divino
Respondeu com educação
Eu não posso pedir nada
E só aceito se me dáo
O fazendeiro retrucou
Não vou dar esmolas não
Gastei muito com meu potro
Pois paguei um dinheirão
E é melhor que vá embora
Ponha-se daí pra fora
Vou abrir o portão agora
Pra soltar meu alazão.

VI

O fazendeiro abriu o portão
E gritou para o cocheiro
Toque o potro pra fora
Em cima desse divineiro
Ao ver o portão aberto
O potro galopou ligeiro
E ao enfrentar o portão
Tropeçou com desespero
Veja que golpe colosso
Caiu e quebrou o pescoço
Morreu sem dar um esbôsso
Na frente do fazendeiro.

VII

O fazendeiro ao ver o potro
Na poeira se espojando
E mais adiante o velhinho
Com o Divino caminhando
Então falou se foi castigo
Não estou acreditando
Pois se Deus existe mesmo
Então me tire do engano
Ouça Deus o que eu falo
Já que matou meu cavalo
Quero ouvir também um estalo
De um raio me acertando.

VIII

Então nesse mesmo instante
Um raio o céu cortou
O fazendeiro assustado
Foi prô chão e desmaiou
Mas quando voltou a si
Quase chorando falou
Por sorte que eu não morri
Porém sei quem me salvou
Ao ver o raio caindo
E uma bandeira me cobrindo
O pombinho do Divino
Com seu manto o desviou.

IX

Hoje esse fazendeiro
É de muita religião
Assiste missas aos domingos
E a Deus pede proteção
Na bandeira do Divino
Que ele só tem vocação
Porém de qualquer maneira
Ele aprendeu a lição
Ao ver o velhinho indo
Em sua casa conduzindo
A bandeira do Divino
Ele corre e abre o portão.