Boi rajado

I

Quando lá no meu sertão  / era tudo mataria
Eu além de um bom carreiro / criava meus bois de guia
Contruí um mangureiraão / e formei as pastarias
Enfrentando no serrado / perigos do dia- a-dia
Onde a onça no grotão / seus miados eu ouvia
Lá pra aquelas ribanceiras
Eu com minha cartucheira
A tempo ela eu perseguia.

II

Certa noite um bezerrinho / berrava no mangueirão
Então eu lembrei da onça / que miava no grotão
Eu dei um salto pra fora / coma cartucheira na mão
Ví que era mesmomo a onça / o vulto na escuridão
Arrisquei dar um disparo / bem naquela direção
Eu acertei a chumbada
Ela saiu machucada
E sumiu na escuridão.

III

Êsse mesmo bezerrinho / dei o nome de rajado
Alguns anos se passaram / se tornou um boi formado
Puxando carro de boi / sempre estava emparelhado
Mas numa viagem que tive / que pousar lá no serrado
Depois que soltei os bois / pra pastarem sossegados
Um perigo alí rondava
O boi rajado já estava
Bufando desesperado.

IV

De repente uma onça / de tocaia me atacou
Eu saltei com a cartucheira / quase que ela me pegou
Mas quando apertei o garilho / a cartucheira falhou
Estava descarregada / o boi rajado se arriscou
Deu uma investida na onça / seus chifres nela cravou
Matando a onça na hora
Por Deus e Nossa Senhora
O boi rajado me salvou.

V

Ao ver no corpo da onça / quase não acreditei
A chumbada de um cartucho / que certa vez atirei
Perseguindo o bezerrinho /o tiro nela acertei
Que é esse mesmo boi rajado / que dessa onça  salvei
Dou graças ao boi rajado / que me salvou desta vez
Se um dia salvei-lhe a vida
Também em contra partida
A recompensa encontrei.

VI

Hoje tenho em minha casa / no esteio pendurado
Ainda o couro da onça / e os chifres do boi rajado
Também minha cartucheira / pendurei alí do lado
O tempo que eu fui carreiro / para mim ficou marcado
São quatro as recordaçõs / Deste meu corpo cansado
Que eu falo sem ter receio
Três delas estão no esteio
E a quarta no meu passado.